Amazon chega aos 30 com ecommerce, nuvem e vigilância – 04/07/2024 – Mercado

Fundada há 30 anos pelo bilionário Jeff Bezos como uma livraria online chamada Cadabra, a Amazon foi muito além das prateleiras virtuais e hoje envolve entre seus tentáculos mercados, produção cultural e governos.

A empresa imprime sua marca na entrega em um dia, em séries reconhecidas pelo Emmy, na câmera instalada sobre o painel das viaturas da Polícia Militar de SP e em serviços de inteligência artificial para o exército de Israel.

A big tech emprega hoje 1,5 milhão de pessoas, o que a torna a maior contratante privada do mundo. O gigante do varejo e da internet tem flutuado em avaliações mercado acima dos US$ 2 trilhões (R$ 11 trilhões) desde 26 de junho, impulsionada por investimentos em inteligência artificial generativa, receita surpreendente e indicativos de corte de custo em seu balanço de 2023.

Ainda está, no entanto, abaixo do valor de mercado de outras big tech. A Nvidia, por exemplo, costuma fechar acima dos US$ 3 tri (R$ 18,6 tri) em valor de mercado.

Isso acontece porque a Amazon opera com margens de lucro mais baixas, mesmo com alta crescente na receita, diz o economista Bruno Corano, fundador da Corano Capital. “Diferente de uma Nvidia, as pessoas não acham que a Amazon pode amanhã dominar o mundo.”

Além disso, a varejistas mantém negócios deficitários, como o Prime Video, e ainda opera em prejuízo em alguns países emergentes, como o Brasil.

Entre as empresas americanas trilionárias, a Amazon é a que mais se arrisca em áreas diversas como varejo e produção cultural, mas mantém a tecnologia no centro da estratégia.

Em carta para investidores, o presidente-executivo Andy Jassy definiu a Amazon como “obcecada pelo consumidor” e “inventiva”. “Estamos pensando por anos afora, aprendendo como loucos, fragmentados, entregando rápido, e operando como a maior startup do mundo.”

O programa de assinatura da Amazon, o Prime, é um exemplo de como é difícil concorrer com a empresa quando o assunto é oferecer um serviço barato e eficiente. Por R$ 19,90 (ou R$ 166,80 por ano), o cliente recebe acesso a streaming de filmes, séries, música e entrega grátis em até um dia útil em parte dos produtos.

E o volume de clientes é alto. A big tech diz ter entregado mais de 7 bilhões de pacotes em 2023 aos assinantes do Prime. “Nos negócios, a velocidade importa”, costuma dizer Bezos em discursos.

Do outro lado do balcão, a Amazon é alvo de críticas por pressionar os trabalhadores ao limite em busca de resultados. Sensores com alta tecnologia, análise de dados e inteligência artificial estão por trás da gestão dos funcionários.

“É como se você fosse um robô, mas em forma humana”, disse o gerente de um armazém americano da Amazon ao Daily Mail em 2013. Um dos dados levantados à época era de que cada funcionário de estocagem da planta do gigante da tecnologia em Staffordshire, na Inglaterra, caminhava 24 quilômetros por dia durante o expediente.

“A tecnologia tem outra face: permite que a Amazon exerça poder sobre os trabalhadores e pressione sua força de trabalho atrás de mais resultados e rapidez”, diz o professor da Universidade de Toronto Alessandro Delfanti, autor do livro “Amazon: Trabalhadores e Robôs”, traduzido para o português no ano passado.

Delfanti ouviu funcionários da empresa entre 2017 e 2021, quando irromperam os primeiros movimentos por sindicalização nas unidades da Amazon. Com isso, vieram denúncias de que a empresa contratou consultorias especializadas em sabotar a organização sindical.

Bezos deixou a chefia-executiva da Amazon em 2021, para se dedicar à montadora de naves espaciais Blue Origin e reconheceu o problema na última carta para investidores que assinou, referente ao ano de 2020. “Precisamos de uma visão melhor para criar valor para nossos empregados, uma visão para o sucesso deles.”

Para lidar com as críticas, o bilionário sugeriu na mesma carta mais tecnologia para resolver uma questão concreta: diversos casos de lesão por esforço repetitivo. “Estamos desenvolvendo novas ferramentas de distribuição de tarefas, com algoritmos sofisticados para rotacionar os trabalhadores em trabalhos que usem diferentes grupos musculares.”

O trabalho duro cria uma rotina de alta rotatividade nos armazéns da empresa, de acordo com Delfanti.

Na cúpula administrativa, no entanto, a realidade é muito diferente, segundo o especialista.

A Amazon foi reconhecida pelo LinkedIn em 2023 como a empresa em que os usuários da plataforma mais desejam trabalhar. É também a maior contratante privada de doutores em economia dos Estados Unidos, de acordo com estudo de 2020. Fica atrás apenas do Federal Reserve, o banco central americano.

A big tech ainda mantém na sua folha de pagamento de cineastas a desenvolvedores de inteligência artificial e chips de ponta.

No setor audiovisual, a empresa compensa os prejuízos do Prime Video com reconhecimento. Produziu não só a premiada “Fleabag” (4 Emmys), de 2019, mas também a série mais cara da história, “O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder” (2022) —cada episódio de uma hora custou US$ 58 milhões. Ainda ganhou dois Oscars com “O Som do Silêncio” (2020).

Além disso tudo, a principal fonte de lucro da empresa são os serviços de nuvem da AWS (Amazon Web Services), fundada em 2002 com a proposta de vender como um serviço a infraestrutura de ponta que fazia a Amazon funcionar a outras empresas. A companhia faturou US$ 91 bilhões em 2023, contra US$ 80 bilhões em 2022.

Hoje, essa subsidiária tem data centers em 21 países, entre eles o Brasil e está por trás de programas diversos: desde o sistema de monitoramento por câmeras inteligentes da Polícia Militar de São Paulo, Detecta, aos servidores de grandes bancos, como o Bradesco.

Na prestação de serviços a governos, a empresa mantém outro laço que tem incomodado funcionários. A AWS fornece tecnologia ao governo e às forças armadas de Israel, o que tem provocado protestos e acusações de “endosso ao genocídio do povo palestino” nos Estados Unidos.

Trata-se do Project Nimbus, uma iniciativa de computação em nuvem e inteligência artificial (IA) de US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6,6 bilhões) que envolve o Google, a Amazon e o governo israelense, incluindo as Forças de Defesa de Israel. Documentos obtidos pelo portal Intercept indicam o serviço pode ser usado em ferramentas de vigilância.

Além disso, como um grande provedor de nuvem, a AWS tem como prioridade se estabelecer no mercado de inteligência artificial generativa. A big tech patrocina a principal concorrente da OpenAI, Anthropic, e é, hoje, a única forma de acesso no Brasil ao chatbot Claude.


LINHA DO TEMPO

5.jul.1994

Jeff Bezos funda a livraria online Cadabra. Segundo o biógrafo Brad Stone, autor do livro “A Loja de Tudo”, a mudança de nome para Amazon foi sugerida pelo então advogado de Bezos, que dizia que a palavra Cadabra podia ser confundida com cadáver

Nov.1994

Bezos anuncia o novo nome e registra o domínio Amazon.com, usado até hoje

Jul.2002

A Amazon começa a prover serviços de nuvem, sob o comando setorial do executivo Colin Bryar. O atual presidente-executivo da empresa, Andy Jassy, assume a chefia da área em 2003

Ago.2006

A AWS torna-se uma subsidiária, com Jassy como CEO

7.set.2006

Amazon funda o serviço de locação de vídeo à distância Amazon Unbox, que daria origem ao Prime Video

19.nov.2007

Lançamento da primeira geração do leitor de livros digitais Kindle

22.fev.2011

Amazon rebatiza serviço de filmes para Amazon Instant Videos e concede acesso gratuito a filmes e títulos de TV a assinantes do Amazon Prime

Dez.2011

Amazon inaugura o primeiro data center no Brasil e elege o país como centro de operações para América Latina

Ago.2014

Amazon começa a vender títulos impressos no Brasil, o que dá início ao desenvolvimento da malha logística da empresa no país. A empresa começou a vender ebooks em território nacional em 2012

6.nov.2014

Lançamento da assistente de voz Alexa

Dez.2016

Amazon anuncia expansão global do Prime Video para 200 países, entre eles o Brasil

17.nov.2017

Amazon lança marketplace no Brasil, que passa a ter mais de 50 mil lojistas parceiros em 2023


RAIO-X – AMAZON

Fundação: 5 de julho de 1994

Lucro líquido em 2023: US$ 30,4 bilhões (R$ 166,7 bilhões)

Valor de mercado: US$ 2,07 trilhões (R$ 11,35 trilhões)

Funcionários: 1,5 milhão

Área de atuação: Ecommerce, serviço de nuvem, audiovisual e internet

Concorrentes: Microsoft, Google, Ebay, Netflix e Spotify

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