Antologia apresenta poesia surpreendente de vanguardista alemão – 06/07/2024 – Ilustríssima

[RESUMO] Antologia poética organizada por Samuel Titan Jr. traz as principais traduções feitas no Brasil de poesias do alemão Christian Morgenstern, autor de vanguarda ainda pouco conhecido por aqui. Versões assinadas por nomes do porte de Haroldo de Campos e Paulo Mendes Campos, afora ensaios de relevo também agrupados pelo volume, dão a ver um poeta poderoso, que foi do humor grotesco à poesia lírica e espiritual com igual destreza.

Antologia bilíngue, “Jogo da Forca” (Editora 34) traz poemas de Christian Morgenstern (1871-1914) em traduções assinadas por nomes conhecidos, como Haroldo de Campos e Paulo Mendes Campos. Começando com a célebre composição visual “Noturno do Peixe”, que não exige tradução (sinais substituem letras), o volume é organizado por Samuel Titan Jr., que assina também o posfácio, onde a recepção do poeta alemão no Brasil é discutida a fundo.

Destaca-se, nesse oportuno posfácio, o fato de “Jogo da Forca” constituir uma homenagem aos primeiros tradutores de Morgenstern no Brasil, entre 1950 e 1990, sem pretender apresentar, porém, um recorte amplo da poesia do autor alemão, ainda pouco conhecido entre nós.

Além dos dois tradutores já citados, integram o elenco Augusto de Campos, Roberto Schwarz, Sebastião Uchoa Leite, Montez Magno, Rubens Rodrigues Torres Filho e Felipe Fortuna.

Ao registrar cronologicamente a lenta chegado de Morgenstern ao país, por meio de versos cômicos e grotescos, nos quais são frequentes os impagáveis personagens Von Korf (que se declara não existente) e Palmstöm, o organizador da antologia confessa que deixou de lado umas poucas contribuições que lhe pareceram pedestres, concentrando-se naquelas que realmente lhe pareceram bem-sucedidas. Graças a essa aposta em boas versões, “Jogo da Forca” impressiona pela alta qualidade poética do conjunto.

Paulo Mendes Campos optou por traduzir um poema lírico, “Erster Schnee” (“Primeira Neve”), oferecendo dele duas versões igualmente sensíveis, feitas em épocas diferentes. Cito a primeira versão, que é a menos elaborada no que se refere à disposição dos versos na página: “Dos vales de gris argênteo / chega à floresta hibernal / uma corça airosa, esguia: / cautelosa, passo a passo, / ela prova a neve pura, fria /que cai do céu. / E eu penso em ti, / em tua graça infinita”.

Os demais tradutores escolheram destacar o lado antilírico de Morgenstern, em versos que descrevem situações absurdas e frequentemente hilárias. Um exemplo característico desse lado grotesco da sua poesia é “Das Knie” (“O Joelho”), composição dedicada a um joelho imortal que parece aludir a um Aquiles reduzido a um fragmento, imagem especular do seu famoso calcanhar, a parte mortal do seu corpo: “Um joelho, ele-só, percorre a Terra. / É um joelho só: mais nada. / Não uma árvore! Não uma serra! / É um joelho só: mais nada. // Na guerra, uma vez, foi alguém / de lado a lado metralhando. / O joelho, ele-só escapou: / como um local sagrado. // Desde aí, ele-só, percorre a Terra. / É um joelho só: mais nada. / Não uma árvore! Não uma serra! / É um joelho só: mais nada” (tradução de Sebastião Uchoa Leite).

O que faz a obra do poeta alemão atual talvez seja o fato de que o seu lado lírico e espiritual não se separa facilmente do seu lado vanguardista e desmistificador. A sátira “patibular” é indiscutivelmente o suprassumo da obra do autor alemão (“Após a morte de Morgenstern, as sucessivas edições das ‘Galgenlieder’ [Canções da Forca] foram recolhendo poemas inéditos ou dispersos, chegando a um corpus que ultrapassa a duzentas páginas”), porém, como Samuel Titan Jr. chama a atenção, as outras vertentes da sua produção poética, menos cultuadas pelos críticos e tradutores brasileiros, não devem ser desconsideradas, como algo à parte.

A oscilação entre poemas grotescos e poemas líricos “pode também nos inspirar uma saudável desconfiança diante de tentativas de distinguir lapidarmente a face celebrada como moderna, grotesca e crítica de sua obra, de um lado, e a face tida por tradicional, lírica e mística, de outro”, pondera Titan Jr.

A tuberculose (contraída da mãe) levou Morgenstern a passar temporadas em sanatórios distantes, tendo, em 1906, numa dessas instituições, uma experiência mística que marcou sua vida para sempre. Por influência de sua esposa, uma enfermeira, começou também a se aproximar da antroposofia de Rudolf Steiner.

Na Europa, Steiner foi uma figura crucial para a arte mais avançada de vários países, influenciando tanto a vanguarda da época de Morgenstern como a posterior, até, pelo menos, a época de Joseph Beuys, o revolucionário desenhista e escultor alemão que deve a Steiner tantas coisas, entre elas o uso do quadro-negro como suporte artístico.

Assim, não se pode atribuir à antroposofia de Steiner uma influência exclusivamente negativa sobre o autor do poema fonético “Das Grosse Lalulā” (“O Grande Lalulā”), quando essa mesma influência, em outros artistas, foi extremamente benéfica, ajudando a arte a trilhar novos caminhos experimentais.

No ensaio “No Planeta de Morgenstern” de 1983, que integra “Jogo da Forca”, Sebastião Uchoa Leite admite a “dissociação estilística” do poeta alemão, mas pondera que, em todo caso, “não se deve também julgar que nesses denominados poemas ‘místicos’ estivesse totalmente ausente o jogo da linguagem”.

Como Thomas Mann mostrou na sua tetralogia bíblica “José e seus Irmãos”, o planeta do místico não é menos excêntrico e assombroso do que o do poeta grotesco e experimental, e Isaac, que foi quase imolado por Abraão, termina seus dias balindo como um carneiro, ou seja, emite na agonia um assustador poema exclusivamente fonético que Morgenstern poderia ter assinado.

O crítico Anatol Rosenfeld já havia, entre nós, nos anos 1950, chamado a atenção para a profunda ambivalência do poeta alemão diante da linguagem, “feita como era ‘do amor do poeta’ que a cultiva e do ‘ódio do místico’ que gostaria de se livrar desse empecilho à iluminação”. Mas esses dois polos se comunicavam subterraneamente, nota o crítico, e o “intuito sistemático de desagregar” a linguagem e a realidade nutria também o desejo ardente de vencer a distância entre “Eu e Deus”, como resume Samuel Titan Jr. no posfácio.

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