Carrego comigo a culpa, e meu surto foi um prato cheio para ela – 10/07/2024 – Vida de Alcoólatra

É muito frustrante, estou com muita raiva, confesso. Não consigo nem me alegrar com o esmalte vermelho que eu passei (sem borrar), nem com a perspectiva de encontrar minha amiga que não via desde maio. Maio!! O surto foi em maio, pulamos para julho e eu pouco entendi do que aconteceu no meio disso tudo. Mas estou contente e muito, mas muito, feliz pelo amor que recebi.

Desde a pandemia, aprendi a pintar minhas unhas sem ficar borrado. Isso é bom, eu comecei a colecionar esmaltes dos mais variados. Vermelho é a minha cor favorita. E é a cor que eu acredito (não só eu, eu sei) que mais representa o amor. Este dá trabalho. Não só o esmalte, que quando passo tenho que ser minuciosa para o pincel não escapar e ficar um borrão, mas o amor, o tal do verbo.

Eu aceito que tive um surto, que aprendi nesse tempo perdido. Aliás, curioso é que uma das frases que guardava lá no meu apartamento em 2016 era: “O tempo que você gosta de perder não é tempo perdido”. Auspiciosa também foi uma das metas que me coloquei para este ano: ler “Em Busca do Tempo Perdido” –um livro básico (rsrsrs) de sete volumes que ultrapassam 3.500 páginas.

Mas o mais importante é que estamos em julho e tudo isso faz sentido. O amor dá trabalho, não acontece da noite para o dia e é por causa desse amor que eu estou em pleno sábado escrevendo a coluna, sem beber, indo às salas de AA e recebendo todo carinho do mundo.

A sobriedade dá trabalho, exige que eu tenha disciplina, que cuide do meu mental, do meu corpo e do espiritual. Os rituais são importantes, nesse campo entra a frequência às salas de tratamento. Eu nunca me ausentei, mas ultimamente não tenho sido tão assídua.

O surto me ensinou que eu tenho minhas limitações. Que, por exemplo, a alegria em excesso não me faz bem. Oras, parece agora que eu estou dizendo que devo ser uma pessoa triste. Não, não é isso. Estou dizendo que tenho que me vigiar, me guardar, me preservar para ter uma boa recuperação.

Algo que eu ainda carrego forte, e isso é característica do meu alcoolismo, é a culpa. E o prato cheio para me culpar foi esse surto. De certa forma atrapalhou o plano de um monte de gente, mas sabe o quê? Cada um daqueles a quem fui esboçar um pedido de desculpas me disse: Esquece, você não foi responsável.

Estar em recuperação não é me culpar e sim me responsabilizar para não repetir os mesmos erros do passado. Sem jamais esquecê-los. Eles precisam estar no meu retrovisor, não tão perto a ponto de causar um acidente (como em um automóvel), mas a uma distância segura para me dar a lição necessária.

Eu não tenho culpa de ser uma alcoólatra, ninguém tem. E viver na culpa é uma das formas mais duras de encarar a realidade. Nesses dias, tenho visto todos os filmes do Paulo Gustavo. Como dou risada com ele!! Não tivemos culpa da pandemia, ele não teve culpa do que aconteceu com ele, mas eu aprendi com a dor. E acredito que cada um aprende com a dor e com o legado da dor.

A pandemia, como disse num dos primeiros textos do blog, foi duríssima para os alcoólatras. Nós não podemos sentir o cheiro de álcool. Ele precisa, sim, estar ali no retrovisor, mas não tão perto a ponto de eu poder sentir o cheiro. A pandemia foi fatal para muitos de nós.

Aprendi a pintar a unha de vermelho sem borrar. Aprendi que devo manter distância da acetona, outro químico que lembra o álcool, e assim dou o meu melhor para ter uma unha vermelha bonita.

Jamais esqueço das dores que causei. Dos meus enganos. Mas fazer o quê? Seguir em frente. Sem culpa mas com responsabilidade. Eu sou, sim, responsável por tudo que fiz. Tive e tenho a sorte de conseguir me reerguer. Caaaaansa, às vezes parece que não vai dar.

Mas aí a gente toma um chá bem gostoso, um banho delicioso e reza. Para agradecer. Andando com fé, com unha vermelha e com cafuné —físico ou virtual. Estou mais forte do que nunca. Hoje, né? Ah, e estou na estrada indo encontrar minha amiga, que prometi ver há mais de dois meses, com unhas vermelhas e todo carinho do mundo.


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