Como a pizza, que nasceu pobre, virou artigo de luxo em SP – 10/07/2024 – Cozinha Bruta

Cheguei ao Dia da Pizza embalado na leitura do livro “Pizza: Uma Storia Napoletana”, do italiano Antonio Mattozzi.

É uma obra fantástica. Despreza as fábulas criadas para enaltecer figurões –como a exagerada importância dada à rainha Margherita– e investiga a fundo as raízes populares da pizza.

Mattozzi descreve a Nápoles dos séculos 18 e 19, único cenário possível para o surgimento da pizza como a conhecemos, das pizzarias e, não menos importante, dos pizzaiolos.

Era um lugar caótico como, em grande medida, continua a ser.

Nápoles fica espremida entre o mar e as montanhas, não tem para onde se expandir. No século 16, recebeu vários fluxos migratórios, de camponeses fugindo da fome nas áreas rurais –na zona urbana, com mais visibilidade, o governo subsidiava fortemente o pão.

Como resultado, tornou-se a segunda cidade mais populosa da Europa, perdendo apenas para Paris –mas numa área muito menor.

A densidade populacional de Nápoles era absurda. Isso causou ondas de especulação imobiliária e resultou em condições insalubres de moradia.

Um “apartamento” típico napolitano era um quartinho sem janela, sem banheiro e, o que importa para esta história, sem cozinha.

As pessoas precisavam se alimentar fora de casa. Foi nesse contexto que a pizza surgiu como uma comida muito barata, vendida nas ruas para gente sem eira nem beira.

Pizza era a cara da pobreza. Farinha, água e umas coisinhas por cima para dar sabor. Assim se entende por que até hoje a pizza napolitana é tão comedida na quantidade das coberturas.

O que não se entende é como a pizza, que continua sendo barata para quem faz, virou artigo quase de luxo em São Paulo. Um programa na casa dos três dígitos.

O cartunista André Dahmer, gaúcho radicado no Rio, até tirou onda da pizza paulistana de cem reais. Ou bem mais do que isso.

Pegue a pizza de camarão rosa da Camelo, de R$ 263 –em tese, a mais cara da cidade.

Mas deixemos de lado os ingredientes supercaros.

Pegue a pizza de muçarela da Veridiana, por R$ 102. A de calabresa apimentada da Bráz, por R$ 117.

Pegue ainda a cobertura de atum em conserva da Speranza, por R$ 122. Ou a de quatro queijos da Castelões, por R$ 136 no iFood. Ambas, pizzarias fundadas por imigrantes italianos.

Por que tão caras?

A resposta é muito simples: porque há quem pague.


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