Conselho que recebi da minha orientadora nunca me abandonou – 27/06/2024 – Juliana de Albuquerque

Durante o mestrado, recebi um conselho da minha orientadora: “Escreva a sua dissertação como se estivesse contando uma história”.

Levei um susto. Será que aquilo era realmente possível? Afinal, eu estava lidando com a obra de pensadores indiscutivelmente complexos, como Hegel e outros alemães da primeira metade do século 19, cujos textos de difícil assimilação acabam convidando o intérprete principiante a partilhar do mesmo grau de abstração e acreditar que, ao assim proceder, estaria finalmente habilitado a se dizer filósofo.

O conselho da minha orientadora nunca me abandonou. Quando nos conhecemos em 2012, embora eu já me interessasse bastante pela relação entre literatura e filosofia, ainda não havia parado para pensar que poderia escrever seriamente sobre esse ou qualquer outro tema como quem conta uma história. Somente depois de muito tempo —e de outras leituras que me fizeram amadurecer e, consequentemente, encontrar a minha própria identidade enquanto pesquisadora—, finalmente compreendi o que minha orientadora quis dizer.

Não se trata de escrever filosofia como quem escreve um romance, um conto, uma biografia ou até mesmo um drama. Pois, ainda que isso seja também possível e que, por exemplo, ao longo do século 20, filósofos como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir tenham sido bem-sucedidos ao se empenharem em conciliar os seus respectivos projetos literários e filosóficos, o conselho da minha orientadora não tinha por objetivo fazer com que, além de estudar filosofia, eu também me aventurasse pelo universo da escrita literária.

Uma das coisas que a minha orientadora se preocupou em transmitir através daquele seu conselho foi de que eu aos poucos começasse a prestar mais atenção em como as ideias sempre surgem a partir de experiências.

Assim, por exemplo, do mesmo modo que a questão dos refugiados se tornou um tema para Hannah Arendt em virtude da sua experiência como judia alemã durante a ascensão do nazismo, ao escrevermos sobre algo também precisamos entender o motivo daquilo nos ter chamado tanta atenção a ponto de despertar em nós a necessidade de colocarmos as nossas próprias ideias no papel.

Por que você escreve sobre determinado assunto? Por que achou que seria interessante tratar desse tema a partir do estudo desse ou daquele autor? De que modo o que eles pensaram ajuda a realmente esclarecer aquilo que você está tentando dizer?

Para mim, o sinal de que estou finalmente começando a entender um pouco melhor as ideias sobre as quais me propus a escrever está, justamente, em conseguir responder a essas e a outras perguntas à medida que o meu texto vai ganhando corpo.

Hoje, acredito que esse processo esteja relacionado ao que minha orientadora quis dizer a respeito de tentar escrever uma dissertação como se estivesse contando uma história, pois de nada adianta acumularmos referências ou regurgitarmos conceitos se não conseguimos demonstrar que também somos capazes de compreender o que estamos dizendo.

Uma das passagens de que mais gosto em “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister” (1795-96), de Goethe, talvez ajude a esclarecer um pouco melhor o que estou tentando comunicar. Em determinado momento da trama, o jovem Wilhelm, tomado de entusiasmo pela obra de Shakespeare, tece um longo comentário sobre “Hamlet”. A sua interlocutora, no entanto, chama a atenção do herói para o fato de que, embora ele cause a impressão de saber tudo sobre Shakespeare, ainda assim, pouco conhece sobre os homens.

O comentário da personagem não deixa de ser irônico, já que o nosso maior ou menor entendimento de Shakespeare, bem como a nossa capacidade de apreciar as suas obras, não dependem exclusivamente do nosso grau de instrução. Estando, sobretudo, relacionado à amplitude da nossa compreensão do que significa ser humano. Isto é, para se entender Shakespeare, a educação ajuda, mas também é preciso ser gente, viver e ser capaz de refletir sobre essa experiência.

Escrever ou fazer filosofia como quem conta uma história significa estabelecer um diálogo, sempre que possível, entre o conhecimento adquirido através dos estudos e as nossas próprias ideias que, por sua vez, não dependem somente de manuais para existirem, pois são, em realidade, consequências da nossa experiência de mundo.

Acho que foi isso o que a minha orientadora quis dizer e é justamente sobre esse tema que tenho me esforçado para escrever nos últimos tempos, em um novo projeto de pesquisa sobre a relação entre filosofia e narrativa, cujo primeiro resultado será apresentado na próxima semana, em Cardiff, no País de Gales. Assim, nas próximas colunas, espero compartilhar um pouco mais sobre essa minha experiência com vocês na Folha.


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