Maternidade roubada – 10/07/2024 – Morte Sem Tabu

Depois de uma vida inteira sem planos de ser mãe, eu e meu marido deixamos que a natureza decidisse. Não pensei muito no assunto. Achava, sinceramente, que a chance era pequena.

As pessoas mais próximas sempre souberam que eu nunca sonhei ter filhos. Foram muitos anos ouvindo as mesmas perguntas.

“Mas como, se você se dá tão bem com bebês?”

“É que, se tudo der certo, eles crescem e se tornam adolescentes.”

Minha convicção era tão forte, que mesmo as insinuações de que ainda não conhecia a felicidade de verdade não me abalavam. Mas tinha uma coisa que eu temia.

Desde que comecei a conviver com mulheres mais velhas do que eu, aos vinte e poucos, perdi as contas de quantas vezes ouvi histórias de pessoas que desejavam muito ter filhos e não conseguiram. Eram anos de tratamento, em muitos casos à custa de casamentos até então felizes.

Algumas me confidenciaram que não tinham certeza de que queriam ter filhos até que começaram a tentar. Dali pra frente, passou a ser mais do que uma vontade de maternar, mas uma necessidade de provar para si mesmas que podiam gestar suas próprias crianças.

Lembro-me bem de estar prestes a engravidar – ou talvez até já estivesse grávida – quando um amigo mais recente me perguntou se eu planejava ter filhos. Respondi não sobre minha vontade, mas sobre o fato de que, se não acontecesse naturalmente, eu não tentaria qualquer tratamento. E falei das muitas mulheres com dificuldades para engravidar e em quanto sofrimento envolvia.

Isso sim era um medo real. Eu nunca temi me arrepender de ter ou não ter tido um filho. Mas temia que, ao tomar uma decisão, a de gerar uma criança, isso se tornasse o meu principal projeto de vida. Um projeto sobre o qual, muitas vezes, não temos qualquer domínio.

Há poucos dias, li o livro ganhador do Prêmio Jabuti de Romance de Entretenimento 2022, “Dentro do nosso silêncio”https://www.bestiario.com.br/livros/dentro_do_nosso_silencio.html, da autora Karine Asth (editora Bestiário). Ana é uma mulher que queria ser mãe, só não pensava em ser tão cedo. Mas uma suspeita de gravidez que não se confirma faz com que ela e o marido, Samuel, resolvam alterar as prioridades. E a ideia de ser mãe, com seguidas tentativas fracassadas, torna-se o centro do seu mundo.

“Quantas horas você consegue passar sem que isso esteja ressoando no fundo da mente como um alarme?”

Quando li a sinopse, imaginei ler sobre todo o medo que, no fim das contas, não precisei viver. Na verdade, eu vivi algo bem diferente.

Meu marido sugeriu que minha temperatura corporal andava mais quente que o normal e que isso poderia ser sinal de gravidez. Nem reparei que a menstruação já estava atrasada. Foram dois testes de farmácia simples negativos que me deram até certo alívio. Era início de pandemia, o mundo fechado, minha vida fechada, em circulação apenas o vírus especialmente cruel para gestantes. Depois de alguns dias, com um terceiro inconclusivo, fiz um teste mais sofisticado. Eu ainda não tinha nem me levantado do xixi quando meu marido mostrou, animado, um visor que apontava grávida de mais de seis semanas.

Sua alegria não me contagiou. É até hoje um dos momentos de maior confusão da minha vida. Sei o dia exato, 8 de outubro de 2020, porque tenho as mensagens no meu Whatsapp:

– Não posso acreditar que a gente tem uma notícia dessas e a sua prioridade é fazer as unhas. Ainda tô um pouco sem entender por que você está aí.

Era a primeira vez que eu tinha marcado para fazer as unhas desde o início da pandemia. A manicure estava na casa da minha mãe esperando. Tive que olhar o teste positivo e sair às pressas, contra os resmungos do futuro pai.

– Não é prioridade, mas eu não fiz a Déia vir até o outro lado da cidade à toa.

O início de “Dentro do nosso silêncio” me soou como um diário de verdade, com detalhes da vida conjunta que muitas mulheres certamente vivem com seus parceiros. “Um ressentimento crescia por dentro, uma revolta e um egoísmo. Um dia amanheci vítima da vida, perdi a habilidade de enxergar os problemas dos outros, via apenas os meus, o meu único e enorme problema”.

Frases que talvez pudessem ser minhas, se o destino tivesse me reservado um desfecho diferente. Lembro de me perguntar se meu companheiro há mais de 15 anos escondia uma vontade especial de ter filhos que não dividia comigo, nós que sempre dividimos tudo. Por que ele parecia tão entusiasmado, enquanto eu estava tão angustiada?

Iria piorar. Uma alteração do primeiro para o segundo exame de sangue sugeriu uma possibilidade de gravidez gemelar. Eu me senti dentro de um pesadelo, enquanto ele achava tudo cada vez mais incrível. Será que, no fim das contas, teria eu descoberto que não queria ser mãe? Meu obstetra, ginecologista desde a adolescência, tranquilizou meus pensamentos não ditos: os hormônios vão fazer seu trabalho.

Assustada por um lado, cética por outro. Fazia muitos anos que eu conhecia as estatísticas. Abortos espontâneos não são incomuns, especialmente no primeiro trimestre, mesmo que você seja muito saudável, mesmo que se cuide muito. Até completar 12 semanas, eu ficaria na incômoda posição de quem apenas espera.

Imaginei que algo assim seria o fio condutor do livro de Karine. As expectativas frustradas, gestações interrompidas na sexta, sétima, oitava semana. A maioria das mulheres que conheço, que acabaram não tendo filhos, chegaram a engravidar mais de uma vez. Algumas tiveram diversos abortos espontâneos. Mas a forma como aconteceu no livro me pegou de surpresa. A vida encontra maneiras muito crueis de mostrar quão incertos são todos os futuros.

E também quão insuportáveis são os sentimentos errados, aqueles como invejar a maternidade alheia, maternidade que a vida roubou de Ana. O que fazer com os sentimentos que não deveríamos sentir e, ainda assim, seguem nos consumindo?

Eu estava bem decidida a não contar para ninguém que estava grávida nos primeiros três meses. Caso eu me tornasse uma quase-mãe, preferia digerir a interrupção no meu tempo, sem precisar dar satisfações sobre aquilo que poderia ter sido. As únicas exceções foram minha mãe e minha sogra. No meio do caminho, com os divertidamente atrapalhados pelos hormônios, entreguei o exame de sangue pro meu pai, que não entendeu nada. Falei que podia ser, talvez, quem sabe, que ele se tornasse avô. Continuou sem entender nada. “É que temos que ver se a gravidez vai pra frente”. “Eu não vou cuidar do filho de ninguém”. Não sei quem estava mais equivocado, eu, que largaria tudo para ser apenas mãe por um tempo se pudesse; ou ele, que é quem mais faz as vontades da neta, agora com três anos.

Que sorte a minha. Podia ter sido muito diferente. Nunca acreditei que a maternidade fosse para todo mundo, nem que ela estancasse as dores existenciais de quem quer que fosse. A sociedade não apenas quer nos obrigar esse papel, como faz parecer que é tudo muito simples: engravidar, gestar, parir, criar. Nada nesse processo é simples no fim das contas. Depois de meses de angústia, eu fiquei e sigo muito feliz. Tive uma gestação tranquila, um parto tranquilo, o puerpério tolerável – que é o melhor a que se pode chegar – e, até aqui, uma criação com rede de apoio privilegiada, a começar pela paternidade efetiva. Que sorte.

Ainda assim, terminei o livro da Karine angustiada, perguntando-me quantos Beta HCG uma mulher tentando engravidar faz durante a vida. Fiz um quando era novinha e minha menstruação atrasou. Isso deve ter uns 15 anos. Já tinha uma vida com meu marido, então namorado, e um trabalho estável, com condições de criar uma criança. Mas naquele momento eu estava absolutamente desesperada. Ver o resultado negativo foi um dos maiores alívios que já senti.

Depois disso, apenas os de confirmação da minha gravidez. A tristeza que Ana descreve ao se deparar com resultados é tão profunda, que tento encontrar algum sinal de que fiquei alegre naquele dia pandêmico de outubro de 2020. Nenhum. Sinto até um certo arrependimento em retrospectiva.

Ao perceber o amadurecimento de Ana ao longo da sua narrativa, penso quantas vezes julguei expectativas criadas apenas pelos desejos. Sempre estranhei quando alguém me contava decisões atuais a partir dos filhos futuros. “Ano que vem vou engravidar, então estamos procurando um apartamento maior”. Eu não respondia, mas sempre pensava “mas e se não engravidar? E se nunca engravidar?”. E, sem saber o que dizer, não dizia nada.

Parecia óbvio, limitar as expectativas a partir do que realmente está nas nossas mãos, aquilo sobre o qual podemos ter controle. Mas não tem nada de óbvio na necessidade de recalcular rotas e redimensionar o papel dos sonhos. Provavelmente, na minha racionalidade pequena, possível apenas porque a maternidade não se apresentava como um sentido para a minha existência, fui incapaz de compreender o tamanho do sofrimento alheio. Não é porque alguém está afirmando uma gravidez para o ano seguinte que realmente acredita que acontecerá. Talvez seja apenas uma tentativa de romper o silêncio, incapaz de reconhecer as incertezas.

A solidão de Ana grita. Talvez exista um sentimento próprio de quem carrega o útero. Aquilo que obriga uma decisão quando o coração, a alma ou a razão ainda desejam, mas o corpo não. Samuel não consegue compreender que o corpo da esposa não aguenta mais. Ele não deseja a criança mais do que à esposa, mas não a convence disso. A ideia de serem pais, elevada ao centro do mundo apenas de Ana, torna-se um não-assunto. E é assim que são os silêncios, e não as brigas, que definem o desfecho de uma relação que talvez não precisasse fracassar junto da tentativa de se ter filhos.

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