O Jardim de Algodão não se curva a trogloditas da censura – 22/06/2024 – Era Outra Vez

Falar sobre “O Jardim de Algodão” não é simples. Não por causa dos temas, linguagens, ilustrações, personagens ou relações criadas pelos autores no livro. A questão é que o lançamento de Tino Freitas e Ionit Zilberman guarda uma surpresa.

Mais do que isso, essa revelação muda toda a narrativa. E faz com que a gente tenha vontade de logo recomeçar, passando a buscar nas entrelinhas e nas imagens as sutilezas que passaram despercebidas.

Por isso, revelar o fim da história é um risco. É flertar com estragar a leitura, com diminuir o impacto dela.

Mas como apresentar “O Jardim de Algodão” sem contar o seu desfecho, se é justamente nesse ponto que o livro desabrocha como arte, subverte as expectativas, coloca o leitor em xeque e questiona o status quo, sobretudo no Brasil carola, conservador e brucutu do século 21?

Talvez o melhor seja voltar ao início. Dizer que tudo começa com uma criança narradora. Desde que a avó paterna morreu, ela vive com o avô viúvo, a mãe e o pai na mesma casa, onde há um jardim cuidado pelo idoso.

Até que essa criança tem um sonho. E, com ele, brota um desejo —o de vestir um vestido florido, tão recheado de pétalas quanto o quintal de onde mora.

A partir daí, a família se mobiliza. A mãe conta que tinha uma roupa parecida quando era menina e que a peça ainda deve estar guardada na casa da outra avó. É claro que o vestido ainda está por lá e rapidamente é embrulhado como um presente.

Para ajudar na festa, o pai pinta as unhas da personagem, uma de cada cor. E então chega o grande dia. Com todos ao redor da mesa, a criança surge vestida com a roupa que tinha sido da mãe no passado.

Mais do que isso não é possível dizer. Basta acrescentar que Tino Freitas e Ionit Zilberman desenvolvem uma narrativa elegante e afetuosa, na qual texto e imagem parecem costurados como flores de um mesmo galho, como fios de algodão que dão contornos à mesma peça. Um não existe sem o outro.

Enquanto as palavras de Tino fazem o leitor flutuar até o clímax, as ilustrações de Zilberman entregam a conta-gotas elementos fundamentais para a narrativa, como as dinâmicas raciais da família, questões de gênero e discussões sobre as liberdades da infância.

Liberdade, aliás, que anda cada vez mais reprimida —não à toa, todas as semanas vemos pipocar novos casos de censura à literatura infantojuvenil, seja no Brasil, seja em outros países.

O mais recente por aqui foi o de “O Menino Marrom”, clássico de Ziraldo que foi proibido nesta semana nas escolas municipais de Conselheiro Lafaiete, em Minas Gerais.

Após a gritaria de um grupo de pais, que acharam agressiva uma parte em que os dois amigos da história prometem fazer um pacto de sangue, a Secretaria de Educação do município resolveu retirar o título das salas de aula para supostamente fazer uma readequação da abordagem pedagógica. Vale dizer que o tal pacto nem acontece. Os meninos acabam mergulhando o dedo num pote de tinta.

Mesmo assim, Ziraldo, que morreu em abril deste ano e teve papel fundamental na oposição à censura e à ditadura militar, acabou se tornando o mais novo autor censurado no país. Recentemente, nomes como Ana Maria Machado, Monteiro Lobato, Lygia Bojunga, Pedro Bandeira e tantos outros também tiveram livros proibidos pelos mais variados motivos.

Os motivos mudam, mas há algo em comum. Em todos, exclama a incapacidade de ver a literatura infantojuvenil não como um instrumento educacional e pedagógico, mas como obra de arte, como objeto que trabalha no campo das ambiguidades, em que personagens não são necessariamente modelos de bom comportamento.

Assim como ocorre em romances ou na poesia, a literatura para crianças tampouco precisa ensinar coisa nenhuma. Não é obrigada a ter moral da história. Não deve ser um manancial de virtudes. Nela, o terreno também é o da liberdade.

O problema é que a liberdade tem sido cada vez mais usada como slogan de grupos que não têm a menor ideia do significado dessa palavra —afinal, basta nascer uma discordância para que eles logo mostrem a face troglodita da censura, exibam os dentes afiados da violência e tentem impedir que os outros sejam efetivamente livres.

É por isso que deve ser celebrada a liberdade que transborda de “O Jardim de Algodão”. Uma liberdade cada vez mais rara. A liberdade da infância.


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