Paraíso baiano alavancou sucesso alemão na Copa do 7 a 1 – 06/07/2024 – Ilustríssima

[RESUMO] Repórter da Folha que acompanhou a Alemanha na Copa de 2014 relembra a temporada do time no litoral baiano, bastante atípica para os padrões da competição, a euforia dos jogadores com a experiência e as boas relações que mantiveram com a população local, como comprovam vídeos que viralizaram na época e ainda hoje despertam simpatia, a despeito da goleada de 7 a 1 sobre o Brasil. Isolada e com acesso difícil, só por balsa, concentração praiana costuma ser apontada como fator central do êxito do país no torneio.

Numa época em que ainda se usava pouco o neologismo viralizar, a cena viralizou: o goleiro Neuer e o meio-campista Schweinsteiger, ambos vestidos com camisas do Bahia e abraçados a desconhecidos, pulavam e cantavam o hino do clube soteropolitano.

Duas das maiores estrelas da seleção de futebol da Alemanha, eles haviam chegado ao Brasil na véspera. Estavam num resort à beira-mar na vila de Santo André, município de Santa Cruz Cabrália, na chamada Costa do Descobrimento, litoral sul baiano onde desembarcou a armada de Pedro Álvares Cabral em 1500, escolhido para ser a base dos alemães durante a Copa do Mundo de 2014.

Naquela mesma tarde, a equipe recebeu no gramado do seu campo de treino um grupo de pataxós que vivem na região, na Terra Indígena Coroa Vermelha. O atacante Klose, que completava 36 anos, foi festejado no meio de uma roda de dança e recebeu de presente um chocalho e um arco e flecha. Neuer ganhou um cocar.

Auxiliados por um brasileiro professor de dança de quem eram chapa, Schweinsteiger e Neuer surgiram dias adiante noutro vídeo, agora na praia, ensaiando desajeitadamente passos de samba e uma coreografia do hit “Lepo Lepo”, do grupo Psirico.

“Se concentração ganhasse jogo, o time do presídio não perdia uma.” De tão boa, a máxima desmerecendo a velha prática de confinar boleiros às vésperas de jogos e durante competições tem dois pais, o técnico João Saldanha (1917-1990) e Neném Prancha (1906-1976), roupeiro, jogador e lenda do futebol carioca.

Mas a concentração baiana dos alemães na Copa-2014 era fora da curva, um caso à parte. Acabou sendo, como reconheceram jogadores e comissão técnica e restou evidente aos olhos do mundo, um dos trunfos da seleção europeia para conquistar o tetracampeonato mundial, atropelando o Brasil por 7 a 1 na semifinal e batendo a Argentina por 1 a 0 na final.

Santo André está localizada na APA (Área de Proteção Ambiental) de Santo Antônio, graças, segundo o decreto estadual que a criou em 1984, à “importância do ecossistema litorâneo que se estende da foz do rio João de Tiba até a foz do rio Jequitinhonha [em Belmonte, vizinha à Cabrália], caracterizado pela presença de várzeas associadas à vegetação de restinga costeira e pela existência de remanescentes da Mata Atlântica, bem como recife de corais, constituindo valioso patrimônio ambiental”.

Embora esteja a apenas 35 km do agito de Porto Seguro, o acesso à vila de Santo André é dificultado pela necessidade de se cruzar de balsa o rio João de Tiba, o que torna suas praias de águas calmas e mornas quase sempre vazias.

O resort Campo Bahia, mesclando luxo e conforto ao despojamento inerente à beira da praia (localizada a poucos metros dos chalés dos atletas), foi construído por empresários alemães sob medida para a seleção do país —a única entre as 32 participantes do Mundial a dispensar hotéis sugeridos pela Fifa para criar sua própria hospedagem.

Em tese, o inverno brasileiro se inicia em junho, mês em que começou a Copa (realizada naquele ano entre 12/6 e 13/7). Mas não existe inverno naquele pedaço de litoral, e o sol quase onipresente no meio do ano não chega a ser escaldante.

Os craques alemães treinavam relativamente pouco, em horários de sol mais ameno. No restante do tempo, faziam atividades físicas no próprio hotel, participavam de entrevistas coletivas no centro de mídia montado pela Federação Alemã de Futebol num resort vizinho e, como estampou um título desta Folha sobre a euforia dos estrangeiros na Copa brasileira, curtiam a vida adoidado.

Passeavam de bicicleta, iam à praia (às vezes acompanhados de esposas ou namoradas) e conciliavam agenda turística e social com ações de marketing: passeio de barco organizado por um patrocinador, visita a uma escola municipal da vila (com direito à bate-bola), gravação de vídeos exaltando o Brasil.

A média com os brasileiros se estendeu ao traje de jogo: o uniforme número 2 da Alemanha para a Copa era vermelho e preto, uma homenagem ao Flamengo, clube de maior torcida do país (sim, aquele que eles usaram no 7 a 1).

“Estamos todos dominados pela ‘febre brasileira’”, resumiu, em entrevista à Folha, Schweinsteiger, um dos mais simpáticos do grupo. Em outra conversa exclusiva, o ex-jogador Bierhoff, então diretor técnico da seleção alemã e maior responsável pela decisão de instalar o QG do time em Santo André, lembrou que teve de vencer resistências.

“Estou 100% satisfeito. Houve ceticismo quando decidi vir, porque o centro não estava pronto. É um lugar especial, pelo clima e pela localização. Se você fica na cidade e vê somente casas, prédios, trânsito, rumores, não relaxa. E estamos numa área que não é tão quente e abafada nem muito fria. É o lugar perfeito. Todos adoraram.”

Como repórter da Folha responsável pela cobertura da Alemanha durante toda a Copa, fiz essas e outras entrevistas com o time que terminaria campeão. Fiquei também hospedado na vila de Santo André, viajando para acompanhar de perto a seleção em todas as partidas.

Diferentemente dos alemães, que tinham uma balsa só para eles, muitas vezes os mortais tínhamos de esperar horrores pela embarcação à beira do João de Tiba — em uma ocasião, a travessia foi feita à noite, no mais puro breu, porque o capitão desligou o farol para economizar bateria. Cenas de jornalismo explícito, como dizia Clóvis Rossi.

Aliás, a primeira travessia alemã do rio só foi concluída graças a uma gambiarra: a maré estava baixa, e, na chegada a Santo André, o para-choques do ônibus do time —novo em folha, em contraste com a balsa velhusca— emperrou no concreto da rampa de desembarque, travando o veículo. O problema foi resolvido com a colocação de pranchas entre a balsa e a rampa.

O congraçamento com a população de Santo André (então com 800 habitantes) e o deleite dos alemães com seu QG improvável foram precedidos por algumas turbulências. A rua principal da vila teve de ser fechada no trecho do resort alemão, gerando críticas dos moradores e a provocação de que o time construíra um “muro de Berlim” na minúscula vila.

Os construtores do resort tiveram, por um acordo com o Ministério Público, de pagar uma compensação ambiental por construir na APA mesmo sem terem obtido todas as licenças ambientais. Moradores protestaram pela demora na promessa alemã de ajudar na reforma do campinho de peladas da vila.

O sucesso do esquadrão de Müller, Kroos, Schweinsteiger, Neuer, Klose, Lahm, Hummels etc. na campanha da Copa foi amainando os problemas. Os alemães jogaram toda a primeira rodada no Nordeste, em partidas disputadas à tarde, com temperatura média de 28°: golearam Portugal por 4 a 0 na estreia na Arena Fonte Nova, em Salvador (três de Müller); empataram com Gana em 2 a 2 na Arena Castelão, em Fortaleza; e bateram os EUA por 1 a 0 na Arena Pernambuco, no Recife.

No primeiro jogo do mata-mata, viajaram até Porto Alegre e, sob 15°, eliminaram a Argélia por 2 a 1 na prorrogação. O choque térmico causou um pequeno surto de gripe no elenco, sem maiores prejuízos. Nas quartas de final, despacharam a França no Maracanã, 1 a 0.

O jogo seguinte foi aquele.

“Nunca vou esquecer do silêncio da madrugada do 7 a 1”, lembra hoje a jornalista carioca Léa Penteado, moradora de Santo André há 20 anos, ex-secretária de Cultura e de Comunicação de Cabrália, agitadora turístico-cultural e espécie de embaixadora informal da região. Até ali, as noites das vitórias alemãs eram de festa. “Daquela vez, eles voltaram muito tarde, e creio que houve uma recomendação para que chegassem em silêncio. Achei muito respeitoso”, diz ela, vizinha do Campo Bahia.

A antiga concentração virou um resort com o mesmo nome, com as diárias mais baratas a partir de aproximadamente R$ 2.500. Na entrada, uma placa informa que ali funcionou uma “acomodação oficial” da Copa. Na praia, a barraca da Santinha mantém duas bandeiras, uma do Brasil e uma da Alemanha.

Um dos garotos que bateram bola com os craques alemães na escola municipal envolveu-se com drogas e pequenos crimes e teve de fugir de Santo André para não ser preso. Parece um caso raro, porque o isolamento mantém a vila pacata. Em Cabrália, poucos quilômetros adiante, na outra margem do rio João de Tiba, a criminalidade é um problema crescente nos últimos anos —assim como os conflitos fundiários têm levado violência à zona rural da região.

Os alemães construtores e donos do Campo Bahia compraram também o outro resort de Santo André, onde funcionou o centro de mídia. Segundo Léa Penteado, os empreendimentos, sobretudo o primeiro, funcionam como escolas de hotelaria e geram emprego para a região.

Não houve um boom de pousadas, mas de moradores de fora. “O que mudou a vida aqui não foi a Alemanha, foi a pandemia, quando começou uma busca enorme por terrenos e casas”, diz a jornalista.

A principal novidade desde os alemães é a construção de um “condomínio exclusivo”, conforme a propaganda da incorporadora, com 56 lotes (de 800 m² a 1.500 m²), “beach club com piscina, fitness, área gourmet e lounge spa com sauna e massagem” e uma “charmosa rua de lojas de grifes e artesanato rústico típico da Vila de Santo André”.

Moradores tentam na Justiça minimizar os impactos ambientais do empreendimento, à beira-mar do trecho definido pelos vendedores como “o segredo mais bem guardado do extremo sul da Bahia”.


ANATOMIA DE UMA QUEDA

ANTES

Jogando em casa, o Brasil era tido como favorito na Copa de 2014. O treinador era Luiz Felipe Scolari, o mesmo do penta, em 2002.

Na primeira fase, o Brasil derrotou a Croácia (3 a 1), empatou com o México (0 a 0), e venceu Camarões (4 a 1). Nas oitavas de final, após empate (1 a 1), vencemos o Chile por 3 a 2 nos pênaltis. Nas quartas, eliminamos a Colômbia por 2 a 1

DURANTE

No Mineirão (BH), em 8/7, Brasil e Alemanha se enfrentaram na semifinal. Às 17h daquele dia começava o 7 a 1, pior desastre do esporte brasileiro.

Gols da Alemanha

O time abriu o placar do jogo aos 11 minutos (Thomas Müller). Numa inacreditável sequência de seis minutos marcou mais quatro: aos 23 (Miroslav Klose), aos 24 (Toni Kroos), aos 26 (de novo Kroos) e aos 29 (Sami Khedira). No segundo tempo, o 6º gol veio aos 69 minutos (André Schürrle). E o fatídico 7º apareceu aos 79 (Schürrle, mais uma vez)

Gol do Brasil

O solitário, chorado e mais desprezado gol brasileiro em uma Copa veio literalmente aos 45 do segundo tempo, no último minuto regulamentar, dos pés do meio-campista Oscar

DEPOIS

Em 12/7, no Estádio Nacional de Brasília, Brasil terminou o torneio em 4º lugar, após nova surra: 3 a 0 para Holanda. Desde então, a seleção brasileira teve poucos momentos de brilho. Terminou em 6º lugar na Copa de 2018 e 7º na de 2022.

Na final de 2014, a Alemanha venceu a Argentina por 1 a 0, na prorrogação, no Maracanã (Rio) e conquistou seu tetracampeonato

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