Perito Moreno: conheça geleira na Patagônia argentina – 26/06/2024 – Turismo

Diante de blocos formados por sucessivas camadas de neve compactada, que formam uma das geleiras mais famosas da Terra, o Glaciar Perito Moreno, o vento costuma ser forte, assim como as temperaturas são muito baixas. As pedras de gelo exibem tons de azul e de cinza-metálico, sob uma névoa constante, que oculta os limites da vastidão gelada. De repente, um trincar, seguido de um estrondo.

O barulho é provocado pelo movimento das placas de gelo que se desprendem naturalmente da massa congelada. Com o desabamento, o enorme bloco, que chega a alcançar 60 metros de altura, cai nas águas do lago, num dos mais impactantes espetáculos da Patagônia.

Geleiras, desertos, lagos, montanhas, florestas e estepes patagônicas (equivalente às pradarias) compõem um ambiente hostil e, ao mesmo tempo, sedutor. Habitat de espécies como guanacos, condores, raposas e pumas, a Patagônia se estende pelos territórios do Chile e da Argentina.

Na província de Santa Cruz, El Calafate é a mais importante porta de entrada da Patagônia Austral na terra dos “hermanos”. A aproximadamente duas horas do centro da cidade, fica o Parque Nacional Los Glaciares, com ingressos na casa dos R$ 200 (adulto).

Criada em 1937, é a maior e a mais visitada reserva natural do país, declarada patrimônio mundial pela Unesco em 1981, lugar onde já foram catalogadas 145 espécies de aves e 24 de mamíferos.

Geleiras como Perito Moreno, Spegazzini e Upsala atraem amantes da natureza vindos de todo o planeta. A maior estrela desse universo criado para proteger o campo de gelo patagônico é Perito Moreno, assim batizada em homenagem ao explorador argentino Francisco Moreno, um especialista, um “perito”, em ciências naturais.

Embora a maioria das geleiras da Patagônia esteja recuando, calcula-se que Perito Moreno se mantenha praticamente estável. Uma das opções para ver a geleira é percorrer o circuito de 4 km de passarelas, que serpenteiam o caminho mais concorrido do parque. Em vários pontos, há mirantes, estrategicamente instalados, que possibilitam uma vista privilegiada das geleiras e do Canal de los Témpanos.

O visitante pode ainda caminhar sobre parte dos glaciares em minitrekking com equipamento específico para o alpinismo em terrenos com gelo ou neve —os chamados crampons. A opção mais concorrida leva cerca de três horas, passa por túneis de gelo e custa cerca de R$ 1.500.

À procura de outras perspectivas, especialmente a de baixo, o explorador pode optar por uma excursão de barco (mais ou menos R$ 220 por pessoa) e ficar a uma distância de 270 m do glaciar.

No dia do passeio, uma chuva fina e insistente veio acompanhada de rajadas de ventos. Conforme se trafegava pelas águas do lago, pedaços de gelo desprendidos eram avistados ao longo do percurso.

Quanto mais próximos à geleira, mais o cenário assumia um matiz azul quase fluorescente. A embarcação fez uma parada planejada para que os navegantes pudessem tomar um trago de uísque servido com gelo retirado diretamente do glaciar.

Mesmo na alta temporada, El Calafate pode ser considerada uma cidade pacata, ideal para ser explorada a pé. Com cerca de 25 mil habitantes, o município concentra seu burburinho na avenida Libertador San Martín, repleta de hotéis, lojinhas de suvenires e de artigos para esportes de aventura e, é claro, muitos bares e restaurantes —o cordeiro assado em fogo de chão, um preparo típico da região, é onipresente nas casas.

O verão é perfeito, porém tanto passeios quanto restaurantes e hotéis ficam mais caros, com valores bem superiores aos de outros destinos argentinos conhecidos dos brasileiros. Abril, outubro e novembro são meses agradáveis e menos disputados. O dólar é aceito nas agências turísticas, mas não na entrada de parques nacionais. Muitos lugares não aceitam cartão.

Nas áreas rurais de El Calafate, casas de luxo estão surgindo em áreas antes ocupadas por antigas fincas, sobretudo naquelas voltadas para a criação de gado, predominantemente de duas raças: angus e hereford.

Recentemente, a experiência de cruzar com esses animais, num ambiente ocupado por lebres selvagens e raposas, tendo as geleiras como cenário, faz parte do programa de um tipo peculiar de hospedagem: o “glamping”. A palavra une “glamour” e “camping”, ou seja, é uma combinação certa para quem gosta de estar em contato com a natureza sem abrir mão do conforto e da boa mesa.

Localizado em uma fazenda às margens do lago Roca, o Pristine Camps possui seis acomodações em estilo domo geodésico, feitas de madeira e vidro, quentinhas, construídas sobre plataformas elevadas. Todas as habitações, incluindo o lobby, são voltadas para os glaciares.

As diárias custam a partir de US$ 1.200 (cerca de R$ 6.600), casal, com todas as refeições e atividades de caminhada. Por mais US$ 200 (perto de R$ 1.100), inclui traslado e um cardápio de passeios que vai de navegação pelo glaciar a trilhas a cavalo por lugares de vistas privilegiadas. O Pristine opera de outubro a abril. A rede tem ainda “glampings” nas salinas de Jujuy e Iguazú, no mesmo país.

A estrada que liga El Calafate até o Rancho dos Lagos, onde o hotel está instalado, funciona como uma imersão no universo patagônico. Seguimos pela Rota 15, a popular Estrada da Lã, que recebeu esse nome por causa das fazendas de criação de ovelhas às margens da rodovia.

O caminho atravessa pontes de rios de fontes de degelo e margeia o lago Argentino, o maior do país. Cruza áreas secas, campos de flores amarelas e calafates, a planta que deu nome à cidade, com cavalos a pastar entre pequenos arbustos, onde a vastidão parece ligeiramente selvagem.

Aos 25 anos, a guia Kallfu Ayelen Santibañez conta que todas as estações do ano trazem brilhos e encantos à Patagônia. Mesmo diante dos impactos da crise climática, o inverno costuma ser de frio intenso, carregado de ventos fortes e dias curtos.

A palavra “kallfu”, ela explica, significa “azul noturno”, em mapuche, idioma de seu grupo originário, que desde tempos remotos habita a região. Santibañez explica que, durante os fins dos dias de outono e inverno, é a cor de seu nome que imprime uma marcação especial no céu. Nas sombras das florestas, a luz azul é a que mais penetra.

Com espaços vastos e vazios, quase intocados, a Patagônia oferece o clima perfeito para quem pretende fugir um bocadinho da espécie humana –ou ao menos de uma parcela colossal e barulhenta que engrossa o chamado turismo de massa.

O jornalista viajou a convite da Venturas Viagens

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