Planejando bem, trabalho no exterior une útil ao agradável – 06/07/2024 – Turismo

Nos últimos anos, as redes sociais têm apresentado cada vez mais opções de trabalhos temporários no exterior. Em vídeos no Instagram e no TikTok, quem está ou esteve fora divulga novas plataformas e novidades em programas de intercâmbio antigos, tornando mais fácil a vida dos que sonham em unir o trabalho ao convívio com outras culturas.

Cuidar de crianças em casas de família (au pair), trabalhos temporários para estudantes de férias (work and travel), experiências de estudo e trabalho, além de troca de hospedagem por trabalho (o chamado “voluntariado”), estão entre as opções mais populares.

Dos intercâmbios atrelados a trabalho, os programas de au pair representam 80% das vendas, contra 17% para work and travel nos EUA e 3% para voluntariado no exterior, segundo Christina Bicalho, vice-presidente da rede de agências de intercâmbio STB (Student Travel Bureau).

Os destinos mais procurados para essas modalidades são Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Irlanda e Malta.

Plataformas de “voluntariado” permitem aos mochileiros custear suas viagens enquanto exploram novos lugares. Nesses sites, os viajantes trocam trabalho por hospedagem e, às vezes, alimentação. As tarefas variam, desde atender na recepção em hostels até organizar tours e cuidar da jardinagem.

A plataforma mais conhecida nessa modalidade é a Worldpackers, que reúne 100 mil viajantes ativos. Para conquistar a hospedagem gratuita, o candidato deve pesquisar as vagas na plataforma e entrar em contato com o anfitrião.

Aos 23 anos, Júlia Smith, administradora de empresas, já fez cinco “voluntariados”. Nas experiências, já foi recepcionista de um hostel nos Alpes Suíços e atendeu clientes em uma casa de chá na Patagônia Argentina —sua estadia favorita até o momento.

Além de compartilhar seu cotidiano nas redes sociais, ela oferece cursos e consultorias pagas para mulheres que desejam transformar em realidade o sonho do mochilão. Júlia não recomenda o “voluntariado” como forma de ter hospedagem gratuita em destinos badalados.

Para ela, é mais importante selecionar a experiência que a pessoa gostaria de viver, e não o destino —afinal, o objetivo do site é oferecer viagens comunitárias.

Ricardo Lima, CEO da Worldpackers, afirma que o site oferece apoio aos viajantes e valores para financiar uma outra hospedagem, caso algo não corra como o esperado durante o “voluntariado”. A plataforma cobra anuidade dos itinerantes, na qual está incluído um seguro.

Segundo Lima, todos os anfitriões cadastrados passaram pela avaliação de uma equipe da Worldpackers. Se houver denúncias, podem ser excluídos da plataforma.

O programa work and travel é voltado a universitários entre 18 e 28 anos que querem trabalhar nos EUA durante as férias no Brasil. A seleção é realizada por agências de intercâmbio brasileiras, que conectam os participantes às vagas.

A paulista Bruna Barros, 23, participou do programa duas vezes, em 2023 e 2024. Após as etapas de seleção, Bruna recebeu uma lista de empresas e os salários oferecidos. Na maioria, as vagas disponíveis são para garçom, camareiro e auxiliar de cozinha em hotéis, estações de esqui e resorts. Escolheu um resort na cidade de Wisconsin Dells, a três horas de carro de Chicago.

Na primeira vez, ela trabalhou três meses na área de atrações. Na segunda vez, no mesmo lugar, foi atendente na cafeteria Starbucks. “Nas duas posições tive dias bons e ruins, mas as duas experiências foram muito boas.”

Ela critica a variação da escala e da rotina. “Não tinha horário fixo. Tinha dias que eu entrava às 6h, tinha dias que eu trabalhava à noite e saía do resort à meia-noite.”

Bruna se hospedou no próprio resort. A escolha do local de moradia ficava a critério do intercambista. “Tínhamos que pagar pela acomodação [no resort]. Era melhor, porque ficava a um minuto caminhando do trabalho.”

A estudante conta que o local disponibilizado pela empresa tinha separação entre homens e mulheres, mas algumas áreas, como a cozinha, eram compartilhadas.

Os gastos e ganhos durante o programa mudam de acordo com o planejamento e o foco do intercambista. Bruna conta que, na sua primeira experiência, gastou muito devido à falta de experiência internacional. No segundo ano, focou em aumentar os ganhos e reduzir as despesas. Para Bruna, a experiência do intercâmbio valeu a pena.

O au pair une trabalho e cultura, com os participantes (na maioria, mulheres) tendo que cuidar de crianças na casa de uma família. No TikTok, a hashtag #aupair reúne mais de 225 mil publicações.

De acordo com o programa oficial de intercâmbio dos EUA, BridgeUSA, para ser au pair é necessário ter proficiência em inglês, ensino médio completo e idade entre 18 e 26 anos. O salário mínimo é de US$ 195,75 (cerca de R$ 1.100) por semana, com a hospedagem e alimentação por conta da família.

Os brasileiros devem obter o visto “J”, que permite estadia de dois anos nos EUA, com o direito de estudar e trabalhar como au pair.

Carla, 27, (nome fictício a pedido da entrevistada) se tornou au pair em 2021, depois de se formar em psicologia. Viveu um ano e meio em Nova York, na casa de uma família que tinha três meninos de menos de sete anos.

“Foi horrível. Ficamos encantadas com a possibilidade de ser recebidas por uma família e se sentir em casa, mas é um sistema que explora a mão de obra barata”, diz.

Carla enfrentou uma barreira linguística. A família não informou, nas entrevistas de seleção, que falava hebraico em casa, o que dificultou a comunicação entre a cuidadora e os pais. “Eu me sentia uma intrusa, porque não sabia o que estava se passando.”

A advogada Laura Aguiar, 26, foi aos EUA em 2022. O início foi turbulento. A primeira família de Laura, de Nova Jersey, tinha uma rotina “muito controladora”.

“Eles tinham um toque de recolher [hora limite para chegar], e não era o combinado antes de eu vir.” Ela continuou no programa, mas se mudou para a casa, na mesma cidade, de outra família, que, segundo ela, entende a essência do programa, que é o intercâmbio cultural. Laura cuida de um menino de 1 ano e meio, em horários flexíveis. “Estou bastante satisfeita com essa família de agora”, relata.

Atualmente no segundo ano do programa, Laura pretende continuar nos EUA e fazer mestrado. Para ela, metas são importantes para aproveitar a oportunidade. “Não venham por emoção. Muita gente vem para cá achando que vai ser mil maravilhas, que as crianças vão ser um amor. Não vão.”

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