Uma França ‘insubmissa’ nasce do resultado das eleições – Opinião – CartaCapital

Tive o privilégio de estar na França em 7 de julho durante o segundo turno das eleições legislativas. A apreensão era grande, pois tudo indicava que a extrema direita ganharia. Mas, surpreendentemente, quem levou foi a esquerda, a Nova Frente Popular (NFP), uma aliança entre a França Insubmissa, socialistas, verdes e comunistas. A proporção de votantes foi recorde, alcançou 67% dos eleitores, patamar que não havia sido alcançado desde 1977.

O programa da NFP é de ruptura, propõe 20 medidas ditas revolucionárias para enfrentar a emergência social, o desafio climático, para aprimorar os serviços públicos e para um caminho de paz na França e no mundo. Entre as propostas, pode-se destacar: aumentar o salário-mínimo, indexar os salários à inflação, baixar a aposentadoria para 60 anos, congelar os preços dos bens de primeira necessidade, melhorar os salários dos professores e diminuir o número de alunos por sala de aula, instaurar um imposto sobre grandes fortunas, assim como taxar os superlucros, melhorar as condições de vida dos imigrantes, criar um grande programa de descabonização, entre outras. Do ponto de vista eleitoral, defendem a construção da 6ª República e a instalação de eleições proporcionais.

A celebração dos resultados mobilizou os franceses país afora. O ar estava pesado antes das vinte horas no domingo 7 de julho, quando começaram a sair as primeiras notícias. Aos poucos, a alegria tomou conta das pessoas que foram festejar nas ruas. Não somente a extrema direita havia perdido, como a esquerda finalmente alcançava o poder. O recado estava dado. Grande parte dos franceses aspira por mudanças profundas, quer mais justiça e inclusão para todas as pessoas, inclusive para as que vêm de outros países. A onda de mudança começou no Reino Unido poucos dias antes, com a ampla vitória de Keir Steimer, do Partido Trabalhista.

É a primeira vez na França que não há maioria na Assembleia, ninguém sabe como fazer, não existe tradição de governar com os diferentes

Novos tempos começam, há muita esperança no ar. Contudo, algumas inquietações permanecem. A Nova Frente Popular saiu na frente, mas não tem maioria para governar, terá que fazer aliança com a coalizão do presidente Macron. É a primeira vez na França que não há maioria na Assembleia, ninguém sabe como fazer, não existe tradição de governar com os diferentes. Ademais, percebem-se tensões entre os integrantes da NFP, ainda não há consenso sobre quem deveria ser o primeiro-ministro: sua principal liderança, Melenchon, da França Insubmissa, ou o secretário-geral do Partido Socialista, Olivier Faure. Macron não parece ter pressa de nomeá-lo, não aceitou a demissão de seu primeiro-ministro e viaja para os Estados Unidos esta semana. E a extrema-direita, que emergiu como terceira força, poderá se juntar ao centro e fazer obstruções sistemáticas, gerando muita instabilidade no cenário político.

Outra preocupação é o crescimento da extrema-direita na Europa. Na França, ela vem se consolidando e se capilarizando, presente em todo o país. No Reino Unido, cresceu também nas recentes eleições alcançando 14% dos votos. Seis países da União Europeia – Itália, Finlândia, Eslováquia, Hungria, Croácia e República Tcheca – têm partidos de extrema direita no governo. Na Suécia, a sobrevivência do executivo depende de aliança com os nacionalistas Democratas da Suécia, a segunda maior força no parlamento. Na Holanda, o incendiário anti-islâmico Geert Wilders está à beira do poder, tendo fechado um acordo para formar o governo mais direitista da história recente da Holanda.

Agora é hora de celebrar os bons resultados eleitorais da França. Mas essa contagiante alegria não pode ofuscar movimentos ultraconservadores que vêm se ramificando em todas as regiões do mundo, inclusive na América Latina, em países como Argentina, Peru e Equador.

Continuemos vigilantes e esperançosos, apostando que os progressistas no poder serão capazes de atender os anseios da sociedade, promovendo justiça e inclusão econômica, social e ambiental. Apostemos que os “insubmissos” possam dar respostas à altura das rupturas prometidas.

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